"Feliz o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento; porque melhor e o lucro que ela da¡ do que o da prata, e melhor a sua renda do que o ouro mais fino."
Prov. 3:13-14

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Domingo, Abril 26, 2009

Ciro Gomes falta quatro a cada das sessões da Câmara

No Estadão:
O mais exaltado crítico da divulgação de abusos com as cotas de passagens aéreas da Câmara é um deputado ausente. Ciro Gomes (PSB-CE) faltou a quatro de cada dez sessões ordinárias e extraordinárias realizadas desde o início do mandato, em 2007. No ano passado, ficou entre os cinco campeões de faltas, com ausências em mais da metade das sessões.

A Constituição prevê a cassação de parlamentares da Câmara e do Senado que faltarem a pelo menos um terço das sessões ordinárias de cada ano legislativo, salvo por licença ou missão oficial. Mas a Mesa Diretora da Câmara pode abonar faltas fora desses contextos se, por arbítrio próprio, aceitar outra justificativa do parlamentar, evitando sua inserção na punição constitucional e garantindo a integridade do salário.

Esse artifício da justificativa pessoal praticamente impede descontos das faltas no contracheque. Assim como a maioria das prestações de contas da Casa, as justificativas são inacessíveis a quem se interessar em saber as razões das ausências.

A grande maioria das faltas de Ciro foi justificada. Não houve punição e desconto dos 81 dias (nos quais houve 144 sessões ordinárias e extraordinárias) em que, desde 2007, esteve ausente e justificou as faltas à Mesa. Ausências em outros 27 dias (31 sessões) foram punidas com desconto salarial.

Em sua defesa, Ciro explica apenas parte das ausências em 2008, quando teve problemas de saúde nos dois últimos meses do ano. Ele teve paralisia facial, em consequência de uma virose. O deputado apresentou à Câmara, nesse caso, atestados que recomendavam "repouso domiciliar".

Terça-feira, Abril 21, 2009

Sobre a possível candidatura de Ciro Gomes

Semana passada, o noticiário político divulgou a intenção de Ciro Gomes de ser candidato à presidência pelo PSB, à revelia da vontade de Lula que quer Dilma como candidata único da base governista. Motivo? Não deixar que Serra vença as eleições presidenciais ainda no primeiro turno. Será só isso?

Pergunta-se: o que há de verdade nessa história? Respondo: tudo. Dilma ainda é uma incógnita. Não se sabe ao certo se ela terá forças contra Serra. Há muita coisa em sua vida que precisa ser esclarecida. Ciro, ao revés, já foi candidato, é conhecido nacionalmente, tem muita força no Nordesnte, e por isso é possível que dê trabalho a José Serra.

A fórmula parece boa, porém, Lula, o capitão-mor petista, está ressabiado, e com razão. Afinal, se Ciro é tão bom de voto como afirmam seus defensores, ele, certamente, tirará Dilma do páreo. Mas Ciro, não é da base do Governo - vocês podem se perguntar? Sim. No entanto, Lula é PT e o PT é Lula. Seu projeto não é de governo, mas de poder.

Ciro, como se sabe, tem a língua maior que o corpo. Qual seria o efeito, daqui a um ano, de alguém como Ciro a percorrer o país dizendo que vai fazer o que Lula não pôde, ou não quis? Dizendo, por exemplo, que vai baixar os juros, enquadrar os bancos e atacar o spread? Que vai avançar na reforma agrária e começar a reforma urbana? Certamente, Lula não quer isso.

O que pretende Lula é fazer, em 2010, a velha luta do bem contra o mal. O bem, logicamente, seria seu governo. O mal o do PSDB. O PT defendendo um governo social e o PSDB defendendo um governo neoliberal.

A base de apoio, sem dúvidas, ainda não está fincada. Não se tem a certeza do apoio do PSB. Nem ainda no PMDB (escreverei sobre isso em outro post).

O PSB parece estar consoliando a ideia de candidato próprio. Quem assistiu ao programa partidário dos socialistas veiculado em rede nacional na semana passada (veja no YouTube) verificou que eles começaram a colocar o foguete na rampa de lançamento. Se ele vai ser lançado, aí já é outra história.

Sábado, Abril 18, 2009

Dilma, o que você fazia na VAR-Palmares?

Clique na imagem para ampli-ala
Matéria da Folha de S. Paulo sobre a ficha corrida de Dilma Rousseff durante do regime militar:

A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) questionou a autenticidade de um dos documentos referentes à sua prisão pelo regime militar publicado, com outros quatro, em reportagem da Folha no último dia 5. Segundo a ministra, a ficha em que ela aparece qualificada como "terrorista/assaltante de bancos" e da qual consta o carimbo "capturado" sobre a sua foto é uma "manipulação recente". Dilma disse que o documento não consta dos arquivos em que ela mandou pesquisar.

"A ficha é falsa, é uma montagem. (...) Estou, atualmente, numa discussão, tentando ver com a Folha de S. Paulo de onde eles tiraram aquela ficha, porque até agora ela não está em nenhum dos arquivos que pelo menos nós olhamos. Então, ela não é produto nem daquela época, ela é produto recente, manipulado, de órgãos ou de interesses escusos daqueles que praticaram esses atos no passado", disse a ministra em entrevista à radio Itatiaia, de Belo Horizonte.(...)"Eu nunca militei em São Paulo nesse período que eles relatam na ficha. Eu morava em Minas. Tem datas aí [na ficha], de 1968, que eu não só morava aí [em BH] como estudava na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Tinha endereço certo e sabido."

Na sua reportagem, a Folha informava, na legenda sob a reprodução do documento, que a ministra não havia cometido crimes a ela imputados. Dilma disse ainda que, embora tenha ficado presa por seis anos, "infelizmente ou felizmente", nunca foi julgada por participação em ações armadas. "Nunca fui julgada por nenhuma ação armada ou por um assalto a banco, porque as minhas circunstâncias foram essas, não os cometi."(...)"A minha situação fica bastante desagradável para aqueles que defendem ou que houve ditadura branda no Brasil ou que no Brasil havia uma regularidade, naquele período, democrática. Nem uma coisa nem outra. Naquela época se torturava, se matou, se prendeu".(...)"Muitas vezes as pessoas eram perseguidas e mortas... E presas por crime de opinião e de organização, não necessariamente por ações armadas. O meu caso não é de ação armada. O meu caso foi de crime de organização e de opinião, que é, vamos dizer assim, a excrescência das excrescências da ditadura".

O que dizer?

Algumas quetões históricas precisam ser esclarecidas. Dilma afirma, em sua última citação na matéria da Folha, que não teria sido presa por participar de ações armadas. Que suas prisões seriam pelo crime de organização e de opinião. Será? Dilma fazia parte dos quadros da VAR-Palmares, e sempre se orgulhou disso. A VAR-Palmares atuou em alguns dos mais notórios casos de terrorismo durante o regime militar, entre eles:

- Julho de 68 – Execução de Edward E. T. Otto Maximilian Von Westernhagen, major do Exército alemão;

Outubro de 68 – Execução de Charles Rodney Chandler, capitão do Exército dos EUA;

Julho de 69 – Assassinato de Cidelino Palmeiras do Nascimento, motorista de táxi (conduzia policiais em seu carro), decorrência do assalto ao Banco Aliança

Julho de 69 – Roubo do “Cofre do Adhemar”. O dinheiro nunca apareceu.

Fevereiro de 72 - Assassinato de David A. Cuthberg, marinheiro inglês, de 19 anos, que visitava o Brasil com sua fragata. Quatro membros da VAR-Palmares estavam entre os executores.

Diante da afirmação de Dilma de que não participou de ação armada, cabe perguntar: o que a senhora ministra fazia realmente no VAR-Palmares? Servia cafezinho? Lavava os pratos?



Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

Internet supera jornais como fonte de notícias nos EUA

Do blog Idéia 2.0 :

O reino do papel vai se esfarelando. Em estudo conduzido no começo de dezembro, a Pew Research Center for the People & the Press chegou à conclusão que a internet agora é a segunda fonte de informação dos norte-americanos.

Passou, sem qualquer surpresas, os jornais. Em um ano, a fatia dos que recorrem à internet por notícias subiu de 24% para 40%, enquanto os jornais se mantiveram praticamente estáveis em 35%.

A TV continua como fonte líder, com 70% dos entrevistados ligando seus televisores quando estão atrás de notícias.

A liderança folgada da TV também parece ser questão de tempo, já que, entre os mais jovens ouvidos pela pesquisa, a busca por dados na TV ou na internet está empatado - 59% afirmou recorrer a cada um dos meios, contra 28% a jornais.

A escalada de 16 pontos percentuais da web entre 2007 e 2008 (você vê a diferença no gráfico ao lado) é a maior diferença já registrada no período de 12 meses de alguma mídia desde 2001, segundo a Pew.

O motivo? Os jovens, de novo. Em 2007, apenas 34% deles recorriam à internet, número que quase dobrou em um espaço de 12 meses. Um preview do estudo pode ser lido no site da Pew.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

Eles agora não querem apenas espelho















Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Democracia ainda muito distante

Editorial do Jornal do Brasil:


SEM POMPA NEM FESTAS OFICIAIS, o ex-presidente de Cuba, Fidel Castro, completou 82 anos na última quarta-feira. Embora o governo da ilha (agora nas mãos do irmão caçula, Raúl, de 77 anos) tenha optado pela discrição em relação à data, uma organização de direitos humanos liderada por ex-preso político fez questão de marcá-la com a divulgação de um relatório sobre as condições gerais do regime. Embora confirme alguns avanços, o texto deixa claro que ainda falta muito para que o país alcance maturidade política e abrace, enfim, o sistema democrático.

De acordo com a Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, a situação na ilha continua sendo "muito desfavorável", mesmo com a chegada à Presidência do general Raúl Castro que assumiu o posto interinamente em 2006, diante das precárias condições de saúde do então Comandante, e foi confirmado no cargo somente em fevereiro passado. Ainda segundo a Comissão, "é pouco provável" que a situação cubana melhore a curto prazo. Segundo o ex-preso político Elizardo Sánchez Santa Cruz, dirigente da or ganização, "nada de fundamental mudou na ilha quanto aos direitos civis, políticos, eco nômicos e culturais, dois anos após certos ajustes na alta cúpula governante".

O relatório afirma que o número de presos políticos na ilha é um dos mais altos do mundo em termos relativos. E ressalta que este ano, houve pelo menos 640 detenções ar bitrárias de dissidentes políticos, sem contar citações policiais e outras formas de repressão, enquanto em 2007 foram registradas 325. O documento diz ser positiva a decisão do governo de comutar a pena de morte de vários réus, mas critica a falta de informação pública quanto ao número de comutações.

- A Comissão - considerada ilegal pelo governo da ilha - reconhece, contudo, que apesar de múltiplas restrições, o Estado segue fornecendo "serviços básicos de educação e assistência médica a todos os cubanos", embora com sérios problemas quanto à qualidade de tais serviços e limitações de materiais educativos e remédios.

Em que pese o tom pessimista do documento, é inegável que o presidente Raúl Castro conseguiu avanços consideráveis nestes seis meses de governo, se comparados às quase cinco décadas de poder (e estagnação) do irmão. Mas se a ilha deseja mesmo alcançar a condição de um Estado moderno, tem ainda um longo caminho a percorrer no campo dos direitos humanos, da liberdade de expressão e da transparência com a coisa pública.

Um desafio a mais à saúde Merece total atenção das autoridades de saúde, bem como dos profissionais da área, a notícia de que o Rio de Janeiro é o campeão nacional de infecção hospitalar. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que divulgou o triste ranking na semana passada, o mal é causado por micobactérias que se proliferam por falta de procedimentos básicos de limpeza e esterilização de equipamentos médicos. O Rio é também o primeiro colocado em número de hospitais contaminados, respondendo por 77 das 128 unidades detectadas, tanto na rede pública quanto na particular.

Embora especialistas afirmem que não se trata de uma situação epidêmica, a população deve ficar atenta para cobrar a realização permanente de procedimentos básicos de higiene dentro dos hospitais. Não bastassem os problemas que crescem a olhos vistos (como falta de médicos, leitos e equipamentos), agora o paciente tem de se precaver também de um inimigo invisível.

Sábado, Agosto 09, 2008

VEJA - Privacidade Grampos ilegais assustam o STF e o Planalto

De olho em nós

Até o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal
Federal suspeitam ter sido alvo de espionagem.
Ninguém está a salvo. É o fim da privacidade no Brasil

Diego Escosteguy e Policarpo Junior

Nos últimos anos o Brasil vem demonstrando uma excessiva tolerância diante das violações à liberdade e à privacidade das pessoas em no-me do combate à corrupção. A espionagem clandestina, uma praga histórica no país, está deixando de ser uma atividade de bandidos para transformar-se em rotina institucional que não poupa ninguém – nem o presidente da República. Há um ano, uma reportagem de VEJA revelou a atmosfera de preocupação que envolvia os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) – alguns deles convictos de que eram alvo de escutas ilegais patrocinadas pela polícia com o propósito de intimidação. Partindo de onde partiu, a simples suspeita, por si só, já seria de uma monumental gravidade. Agora, descobre-se que as desconfianças não eram produto de paranóia. O gabinete do presidente do STF, Gilmar Mendes, foi alvo de um monitoramento criminoso. Um documento reservado obtido com exclusividade por VEJA mostra que espiões, instalados do lado de fora do tribunal, usaram equipamentos para tentar interceptar as conversas do ministro e de seus assessores dentro da mais alta corte de Justiça do país. Que tenham tentado já é um evento sem precedentes e de conseqüências funestas se não for esclarecido – e contido. Caso tenham conseguido realmente ouvir as conversas dos ministros, está-se diante de um grave e inaceitável ataque à democracia.

A localização da escuta foi feita durante uma varredura eletrônica de rotina realizada pela secretaria de segurança do tribunal em 10 de julho passado – um dia depois de o ministro Gilmar Mendes ter concedido o primeiro habeas corpus que liberava da prisão o banqueiro Daniel Dantas, detido dias antes por uma operação da Polícia Federal. Utilizando um aparelho rastreador, os técnicos do STF identificaram uma freqüência de rádio de forte intensidade na sala 321, onde despacha o assessor-chefe da presidência. A sala também é usada por Gilmar Mendes em reuniões com auxiliares quando se ocupa de prolatar sentenças. O aparelho rastreou o local por cerca de duas horas e dez minutos e acusou a presença de sinais eletromagnéticos comumente associados ao uso de espionagem eletrônica. Tudo o que se falava ali estava sendo captado e transmitido para o lado de fora do STF. Não foi possível identificar a origem exata da intromissão clandestina, mas suspeita-se, pela natureza da freqüência medida, que os espiões estivessem com seus equipamentos em um estacionamento próximo. "O sinal captado é altamente suspeito, e vinha de fora do STF", descreve o relatório, assinado por Ailton Carvalho de Queiroz, chefe da seção de operações especiais da secretaria de segurança do tribunal. E o documento conclui: "O que nos leva a suspeitar de um possível monitoramento, que pode ter ocorrido nas proximidades do edifício-sede".

O relatório faz referência a uma "provável escuta" e a um "possível monitoramento". Os peritos só não afirmam que o grampo efetivamente aconteceu porque, tecnicamente, seria preciso modular a transmissão, o que significa decifrar o que estava sendo transmitido naquele instante. Ou seja, precisavam escutar no próprio aparelho as conversas de dentro do tribunal – o que seria a prova definitiva. Como isso não aconteceu, o sinal de rádio encontrado, mesmo sendo característico de uma ação de espionagem, foi classificado como "provável escuta". Mas os peritos não têm dúvida de que o presidente do STF foi mesmo vítima de escuta clandestina. O aparelho usado pela equipe de segurança para varredura é o que existe de mais eficiente no mercado – e ele acusou a transmissão em nível máximo. Os técnicos também descobriram que as ondas estavam concentradas na sala do assessor do presidente. Se fossem oriundas de uma transmissão convencional inocente, seriam detectadas também em outros ambientes do tribunal e, ainda assim, teriam características bem diferentes das captadas. Os espiões estavam interessados, ao que tudo indica, apenas no que se passava na sala da presidência.

Fotos divulgação e Eduardo Knapp/Folha Imagem
SEM PRIVACIDADE
O ministro Gilmar Mendes e a sala do STF onde a segurança rastreou a provável ação de arapongas: o ouvido pode ser institucional

O araponga poderia ser um advogado interessado num processo qualquer ou um detetive, desses que bisbilhotam a vida dos outros em busca de informações de interesse de seus clientes. Combinado com outro episódio, porém, o relatório do tribunal reforça a convicção de que Gilmar Mendes foi vigiado por oficiais em desvio de conduta. Desde o dia 9 de julho, quando, pela primeira vez, concedeu um habeas corpus para soltar o banqueiro Daniel Dantas, o ministro foi informado de que a Polícia Federal, com a ajuda da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), poderia ter gravado diálogos dele ao telefone. No dia 10 de julho, horas depois da varredura que encontrou o grampo, o ministro conversou sobre o processo com a vice-presidente do Tribunal Regional Federal de São Paulo, desembargadora Suzana Camargo. Ela confidenciou ter ouvido do juiz Fausto de Sanctis, o responsável pela decretação da prisão de Daniel Dantas, a informação de que a PF havia monitorado o gabinete do ministro. O juiz teria, inclusive, se mostrado bastante irritado em razão de um diálogo captado com críticas feitas por Mendes à fragilidade jurídica da prisão. O ministro confirmou que realmente fez as críticas a De Sanctis. Como não havia autorização judicial para grampear Gilmar Mendes, ao revelar que ouviu conversas privadas do ministro, é razoável supor que o juiz teve acesso a um material obtido clandestinamente – o que ele nega. Informado sobre o relatório da segurança que detectou o grampo, o presidente do STF disse que, apesar de enojado, não ficou surpreso com a notícia, mas ainda não sabe o que fazer: "Vou chamar a polícia?".


Fotos ABR, Orlando Brito-OBRITONEWS/Celso Junior-AE e Ana Araujo
SOB SUSPEITA
A sala do presidente fica a menos de dez passos da de seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho (no centro),que pode ter sido vítima de escutas legais e ilegais. O diretor da Abin, Paulo Lacerda (à dir.), diz que não sabia de nada, mas sua versão está sendo investigada pelo Planalto

As suspeitas de uma ação de espionagem institucional criminosa contaminaram o ambiente também no Palácio do Planalto. Nos grampos feitos pelos policiais da Operação Satiagraha, a que levou Dantas ao xadrez, aparecem conversas de Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete do presidente Lula, com o advogado e colega de PT Luiz Eduardo Greenhalgh, contratado pelo grupo Opportunity, de Daniel Dantas. Como Greenhalgh estava sendo espionado por ordem judicial, não pareceu extravagante que o íntimo colaborador do presidente aparecesse nos grampos. A desconfiança agora no Palácio é muito mais grave. Em alguns altos gabinetes, acredita-se que Gilberto Carvalho foi espionado diretamente – e não apenas quando falava com o advogado petista suspeito. Um assessor palaciano viu transcrições de conversas de Carvalho, muitas delas internas, e ficou claro que elas não tinham nenhuma relação com o foco da investigação do caso Dantas. As transcrições das conversas faziam parte de um calhamaço enviado anonimamente ao Planalto, tendo Gilberto Carvalho sempre como um dos interlocutores. Não seria preciso ser um gênio para concluir que o próprio assessor do presidente estava sendo alvo de escuta clandestina.

Fotos Ana Araujo, Wilton Junior/AE e Ed Ferreira/AE

GRANDE IRMÃO

A Abin está no epicentro da crise por ter participado ilegalmente da Operação Satiagraha, na qual a PF prendeu o banqueiro Daniel Dantas (à esq.). Os arapongas da agência tiveram acesso aos dados sigilosos dos investigados na operação, freqüentaram a sala da PF onde estavam sendo organizados os trabalhos e chegaram a seguir suspeitos. O delegado Protógenes Queiroz (à dir.) mantinha o diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, informado de todas as etapas da investigação. Os dois tiveram acesso ao cadastro de todos os telefones do país

O assessor conta que folheou diversas transcrições em busca de passagens que pudessem comprometer Carvalho. Não encontrou nada que chamasse atenção. A maioria delas era de diálogos internos, do chefe-de-gabinete do presidente com jornalistas que cobrem o Palácio, com suas secretárias e com auxiliares próximos. Numa das conversas, o assessor do piloto Emerson Fittipaldi tentava marcar uma audiência do esportista com Gilberto Carvalho . Em meio aos grampos ilegais havia também os diálogos do chefe-de-gabinete interceptados pela PF na Operação Satiagraha – justamente as conversas de Carvalho com Luiz Eduardo Greenhalgh. Esses diálogos já vieram a público e mostram que o ex-deputado recorreu a Gilberto Carvalho para descobrir se um assessor de Dantas estava sendo seguido pela Abin. Ao fim de cinco minutos, depois de folhear rapidamente as transcrições, o assessor da Presidência entregou os papéis ao chefe-de-gabinete de Lula. Não seria preciso ser um Einstein para concluir que, se havia conversas legalmente gravadas misturadas aos demais grampos, o autor das interceptações legais e ilegais só poderia ser o mesmo – algum agente da Abin trabalhando para a Polícia Federal.


Andre Dusek/AE
GRANDE IRMÃO II
A PF, comandada pelo delegado Luiz Fernando Corrêa, tem pautado suas investigações a partir de grampos: 400 000 telefones pendurados

Procurado por VEJA, Gilberto Carvalho confirmou a troca de telefonemas com o assessor de Fittipaldi e outros que aparecem nos grampos ilegais. Carvalho, porém, negou que tenha visto as transcrições. Ele já foi informado pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, de que não houve autorização oficial para grampeá-lo durante a Operação Satiagraha. É mais uma evidência de que os diálogos internos foram captados sem autorização judicial. "Isso é muito grave e tem de ser apurado", disse o chefe-de-gabinete do presidente. A mera existência de indícios de que a ante-sala do presidente possa ter sido alvo de espionagem configura um atentado à democracia. Não é a primeira vez que o círculo íntimo do presidente Lula esteve na mira de arapongas. A segurança já detectou a existência de escutas durante as viagens de Lula, em lugares onde ele iria se hospedar. O Palácio não revela detalhes desse tipo de ocorrência e nunca ficou provado que os grampos fossem fruto de uma ação institucional. Mas, depois dos grampos sobre Gilberto Carvalho, esses incidentes passaram a ser analisados no Palácio do Planalto sob outra ótica, mais severa e mais paranóica, em que não se exclui a possibilidade de sua origem ter sido fogo amigo por parte de espiões oficiais.


Joedosn Alves/AE
ABIN x ABIN
O general Jorge Felix foi encarregado pela Presidência de apurar as suspeitas de grampo no Palácio do Planalto

Assim como no STF , as suspeitas da existência de grampos inquietaram funcionários da Presidência. Varreduras foram feitas nos gabinetes, os aparelhos de telefone fixo foram trocados e os principais assessores, aconselhados a se comunicar por celulares com embaralhador de voz. Se já era comum evitar a discussão de assuntos reservados ao telefone, alguns assessores do presidente passaram a dialogar em código até para marcar reuniões. Os assessores mais próximos do presidente Lula estão desconfiados da Abin. Ninguém, nem o presidente, sabia da participação dos arapongas na operação policial que resultou na prisão do banqueiro Daniel Dantas. O juiz e o procurador responsáveis pelo caso também a desconheciam. O diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, chegou a afirmar ao presidente que ele também não sabia de nada. Indagado a respeito na semana passada, o delegado Protógenes Queiroz, que chefiou a investigação, disse que os arapongas participaram informalmente, ajudando no levantamento de informações cadastrais dos criminosos – só isso.


PROBLEMA ANTIGO
Em 1999, o araponga da Abin Telmo Barreto foi apontado como responsável por um grampo contra o presidente Fernando Henrique Cardoso

A verdade é que o envolvimento dos arapongas na investigação foi maior, bem maior, do que Protógenes admitiu – o que levanta uma série de dúvidas. Lacerda, que não sabia de nada, era informado de todos os passos da operação na própria sede da Abin. Essa proximidade está documentada em relatórios do departamento da Polícia Federal, alijada da investigação pelo delegado. Mais: todas as operações delicadas foram confiadas aos arapongas. A Abin é um órgão de estado, com atribuições e prerrogativas bem definidas. A agência deve investigar assuntos que afetem a segurança nacional, como ameaças terroristas ou possíveis atentados à vida do presidente. Ela não tem poder de polícia e responde diretamente à Presidência da República. Numa subversão completa da ordem legal, os arapongas passaram a seguir os investigados, produzir relatórios e, suspeita-se, grampear pessoas. A pedido do gabinete da Presidência, uma investigação está sendo iniciada para esclarecer a participação da Abin na Operação Satiagraha e verificar se houve alguma ação irregular de agentes dentro do Palácio do Planalto. Se isso aconteceu, não seria nenhuma novidade. Em 1999, arapongas da agência interceptaram clandestinamente conversas do então presidente Fernando Henrique Cardoso e de vários assessores. Paulo Lacerda, que sabia de tudo e não sabia de nada, já foi avisado de que sua situação não é confortável.


Sergio Dutti

Este blog foi criado em 1º de Junho de 2006 por sugestão do jornalista Ricardo Noblat, de O Globo. Aviso: Nos comentários não são toleradas quaisquer ofensas. Comentários ofensivos não serão publicados e sim sumariamente excluídos
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